Em 18 de outubro comemora-se o Dia do Médico. Juntamente com outras categorias da área da Saúde, poucos profissionais fizeram tamanho jus a este tipo de homenagem desde o início da pandemia de coronavírus, em março de 2020. Como se sabe, médicas e médicos foram desafiados por meses a fio por uma doença nova e de rápida disseminação, que lhes exigiu forte capacidade de atualização técnica e intensa empatia com pacientes e familiares.

Poucos áreas também passaram por mudanças tão velozes neste período como a da medicina. A pandemia acelerou tendências que ainda eram incipientes, como o uso da inteligência artificial, e impôs modalidades como a teleconsulta e o telediagnóstico inclusive a profissionais pouco familiarizados com tecnologias mais recentes.

Gerações

Para veteranos como o Dr. Osmar Ratzke, formado em Medicina na década de 1960, as diferenças entre os recursos de hoje e os da época em que iniciou a carreira são imensas. Tamanho salto exige destes profissionais uma grande adaptabilidade em momentos de mudança acelerada como o atual — uma qualidade mais frequentemente associada ao dinamismo de profissionais mais jovens.

A essência do médico é o vínculo terapêutico com o paciente, que propicia a necessária confiança deste para com o médico e propicia que o paciente execute corretamente a prescrição terapêutica.
Dr. Osmar Ratzke

“Médicos à moda antiga têm mais dificuldades de se adaptar a novas tecnologias como prontuário eletrônico, teleconsulta e outras. Os mais jovens, que nasceram mexendo no smartphone, têm, evidentemente, mais facilidade”, analisa o médico psiquiatra, fundador da Clínica Heidelberg. “Mas isto é uma generalização, pois vemos muitos colegas antigos manusearem com facilidade computadores e congêneres, pois a questão é sobre a capacidade ou não de adaptação aos novos tempos”, diz Ratzke.

A cardiologista Viviana Lemke, que iniciou a carreira ainda nos anos 1980, também avalia que a capacidade de adaptação tem mais a ver com as habilidades pessoais do que com a idade. “Temos visto médicos que tinham dificuldades com novas tecnologias e que não tinham contato com pacientes por meio da internet demonstrando uma grande facilidade de aceitação”, conta. “Pode haver dificuldades iniciais, mas, depois, estes profissionais são os mais animados a utilizar as ferramentas das novas tecnologias”, diz.

Formada nos anos 2000, a médica neurologista Olga Francis Pita Chagas lembra que a incorporação das novas tecnologias à medicina, embora exija adequações, representa um grande avanço na prática profissional. Ela lembra que, no início da carreira, trabalhou em hospitais e unidades de pronto-atendimento onde não havia computadores e todo o prontuário médico era feito à mão.

“Era obrigada a carregar inúmeros livros pesados e guias práticos que iriam me auxiliar nos atendimentos. Passei por alguns ‘apuros’, pois, em algumas situações, os livros que estavam disponíveis não possuíam uma determinada informação crucial para aquele momento”, conta Chagas.

“Hoje em dia temos acesso ao conhecimento ilimitado através de uma ferramenta que cabe na palma de nossa mão e que é livre para ser utilizada a qualquer hora e qualquer lugar, tornando fácil e ágil a propagação de informações e a constante atualização do médico”, avalia.

Mudanças

A médica neurologista explica que o cenário da pandemia gerou e continua gerando inúmeras mudanças na prática médica diária — resultado da busca por alternativas para a manutenção do atendimento médico de qualidade.

A essência do médico é querer cuidar de pessoas. Pode ser ‘olho no olho’ ou por Zoom e WhatsApp. Isso pode mudar. Mas o querer ajudar o paciente é o que permanece constante em nossa profissão.
Dra. Viviana Lemke

“Nos vimos obrigados a fechar as portas do consultório, para, então, aprendermos a ‘desbloquear’ as telas dos computadores e celulares. Uma tecnologia totalmente inovadora que pode nos permitir amparar as ânsias e aflições dos doentes que, muitas vezes, se sentem desamparados com a interrupção do atendimento presencial.”

Para a Dra. Viviana Lemke, mudanças no dia a dia da prática médica aceleradas pela pandemia têm caráter positivo. A regulamentação de atendimentos online no Brasil, para a cardiologista, trouxe segurança para oferecer soluções mais confortáveis para os pacientes.

“Consultas de retorno e orientações já podem ser feitas de forma remota, beneficiando o paciente, que deixa de gastar tempo e dinheiro com transporte”, explica. “Na minha experiência, este contexto de mudanças impacta na prática médica e na relação médico-paciente de forma positiva.”

Para a Dra. Olga Chagas, além de permitir o atendimento médico no conforto da casa do paciente, a telemedicina facilitou o acesso à saúde para pacientes das mais diversas classes sociais e condições físicas, de forma rápida, prática e de baixo custo. “Embora este tipo de atendimento não substitua a qualidade do atendimento presencial, muitas vezes, funciona como uma ferramenta valiosíssima ao fornecimento de informações ao doente”, diz.

Essência

Embora trate-se de um ofício altamente técnico, a profissão médica também está fortemente baseada nas ditas competências comportamentais, como a empatia e a boa comunicação.

Uma consulta deve seguir três princípios básicos: empatia, conhecimento e profissionalismo. Todos devem ser mantidos, independentemente da forma como o atendimento é realizado. Um bom atendimento, seja presencial ou por telemedicina, gera uma relação médico-paciente duradoura
Dra. Olga Chagas

São elas que permitem ao médico a conquista da confiança dos pacientes e seus familiares, por exemplo — o que pode ser decisivo no levantamento das informações necessárias para a melhor assistência à saúde.

“A essência do médico é o vínculo terapêutico com o paciente, que propicia a necessária confiança deste para com o médico e propicia que o paciente execute corretamente a prescrição terapêutica”, diz o Dr. Ratzke.

Juntamente com “soft skills” como resiliência, capacidade de lidar com estresse, atitude positiva, habilidade de liderança e trabalho em equipe, habilidades pessoais que podem ser desenvolvidas ao longo de vários anos de experiência se mostraram decisivas em uma situação de crise tão dramática quanto a trazida pela pandemia — ao lado da atualização técnica e tecnológica inerente aos profissionais mais novos.

“A essência do médico é querer e se preparar para cuidar de pessoas sempre da melhor forma. Pode ser ‘olho no olho’ ou por meio de uma ligação via Zoom ou WhatsApp. Isso pode mudar. Mas o querer ajudar e cuidar do paciente é o que permanece constante em nossa profissão, independentemente de qualquer novidade tecnológica”, diz a Dra. Viviana Lemke.

Para a Dra. Olga Chagas, é possível criar uma boa relação médico-paciente diante das telas dos computadores. “Uma consulta médica deve seguir três princípios básicos: empatia, conhecimento e profissionalismo. Todos eles devem ser mantidos, independente da forma como o atendimento é realizado. Um bom atendimento, seja ele presencial ou por meio de telemedicina, gera uma relação médico-paciente leve e duradoura”, explica.